Teólogo defende punição para turturador

Iwwa Agência
Publicado 12/09/2008 02:09:02

De passagem por Camaçari, onde foi palestrante no Fórum de Acolhimento nas Uunidades de Saúde, com Enfoque na Humanização do Atendimento, realizado nesta sexta-feira (12/09), na Cidade do Saber Professor Raymundo Pinheiro, o teólogo, filósofo e professor Leonardo Boff disse ser imperioso, até mesmo por uma necessidade histórica, identificar e punir os mandantes e executores de crimes de torturas, sequestros, assassinatos e sumiço de corpos de militantes e ativistas políticos durante a ditadura militar, de 1964 a 1985.

Em longa entrevista especial, ele falou não apenas da revisão na Lei da Anistia, mas também dos rumos que tem tomado a Teologia da Libertação, da qual é um dos mais influentes teóricos, do papel da Igreja Católica em um mundo globalizado, dos motivos que determinam a falta de padres, da crise na saúde pública e da importância de governos, sociedade civil e organizações não governamentais assumirem uma posição mais firme em defesa do meio ambiente.

Leonardo Boff chegou em Salvador na quinta-feira (11/09), no mesmo dia quando passava pela cidade a Caravana da Anistia da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, para apreciar o caso dos trabalhadores do Pólo Petroquímico de Camaçari demitidos por motivação política na greve da categoria de 1985, quando 17 mil empregados cruzaram o braço e o governo determinou a invasão do complexo industrial pela polícia.

Na quinta-feira, o filósofo fez o lançamento, em Salvador, na Reitoria da UFBA, do DVD Ética & ecologia: desafios do século XXI, cuja produção teve o apoio do Ingá (Instituto de Gestão das Águas e Clima).

Abaixo, as opiniões de Leonardo Boff sobre os diversificados temas tratados na entrevista especial.

DIREITOS HUMANOS
“Os crimes contra a humanidade são irremessíveis. A tortura agride da forma mais profunda a dignidade do ser humano, por isso mesmo não podemos deixar que o caso caia no esquecimento. No Brasil, durante a ditadura militar, o Estado se fez terrorista. Os agentes públicos que torturaram, seqüestraram, mataram e deram sumiço em corpos de seres humanos simplesmente porque tinham posicionamento político que não se combinavam com o governo, precisam ser identificados e punidos. Inclusive para que fatos semelhantes não voltem a acontecer.

Se o Brasil não identificar e punir os torturadores e mandantes, cortes estrangeiras podem fazer, pois os crimes contra a humanidade são da alçada do Direito Internacional. E o Brasil está demorando muito a tomar a iniciativa, que é inevitável, até mesmo para o resgate da história. Argentina, Chile e outros países já fizeram, mas o Brasil resiste. Agora mesmo, estive em Neuquén, na Argentina, onde participei de um tribunal para julgamento de oficiais de alta patente que cometeram os mesmos crimes durante a chamada guerra suja. Não há como evitar, portanto é melhor encarar de frente”.

TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO
“Dizer que a Teologia da Libertação acabou é um grande equívoco. Os teólogos continuam vivos, atuando e publicando trabalhos, teses e propostas. A Teologia da Libertação nasceu ouvindo o grito dos pobres, dos índios, dos negros, dos trabalhadores, das mulheres, dos estudantes, enfim da grande massa de pessoas, em toda a terra, que são violentadas, desrespeitadas, excluídas. E continuará a existir enquanto persistirem a pobreza e a opressão.

Muitos pensam que a Teologia da Libertação acabou por causa do fim da guerra fria, da queda do muro de Berlim. Acontece que a nossa grande preocupação sempre foram os pobres e não o marxismo.

Entendemos que o oposto à pobreza é a justiça. O cristianismo sempre foi um fator de libertação e de justiça social. Afinal, Jesus Cristo morreu na cruz por causa de um protesto religioso, mas também político. Nós, da Teologia da Libertação, somos os herdeiros do libertador. Pensar e fazer o contrário é cinismo.

Em toda edição do Fórum Social Mundial, e no próximo ano, em Belém (PA), não será diferente, acontece um fórum à parte para tratar e discutir exclusivamente a Teologia da Libertação. Permanecemos muito vivos, com importante atuação, principalmente na América Latina, Ásia e África”.

IGREJA E GLOBALIZAÇÃO
“A Igreja Católica ainda não encontrou o seu lugar na globalização porque é muito ocidental. Precisa, embora não queira, aprender como transceder os limites do Ocidente, ultrapassar as fronteiras do império. Hoje, a igreja se depara com três grandes desafios, que se não souber enfrentar se afastará ainda mais do ser humano, das carências espirituais e materiais do cidadão.

O primeiro desafio é de caráter social e mundial. A igreja precisa ouvir o grito dos pobres, desprezados pelo mercado porque não são produtores nem consumidores. O segundo é que na globalização torna-se imperativo enfrentar o diálogo com culturas e religiões distintas. No mundo globalizado, o catolicismo não está sozinho, portanto necessita conviver, reconhecer e lidar com todos os movimentos espirituais. A Igreja Católica não é o único caminho da salvação.

O terceiro desafio é a defesa da terra e da vida, que estão ameaçadas. É decisivo combater o aquecimento global e impedir os efeitos na água e no solo, para não afetar a produção de alimento. É preciso uma ação de forma pedagógica, que ponha em debate a crise de água potável e estimule o consumo solidário. A igreja pode e deve jogar papel fundamental nessa fase delicada da experiência humana na terra, mas está atrasada nisso.

De toda a água existente no mundo hoje, somente 3% são doce e apenas 0,7% é potável. A continuar no ritmo que vamos, em pouco tempo mais de 2/3 (dois terços) da humanidade estarão sem água. E sem água não há vida, seja animal ou vegetal. Essa é uma luta da qual devem participar todas as instituições e entidades, principalmente a Igreja Católica”.

FALTA DE PADRES
“O poder e as decisões na igreja estão muito concentrados nas mãos de poucos. E a forma de gestão é extremamente autoritária. A verdade é que a igreja continua muito autoritária, não projeta uma imagem atraente e assim afasta as pessoas. Por isso mesmo, poucos, raros, querem ser padre.

Justamente por estar muito atrasada no tempo, a igreja hoje só atrai os conservadores, o pessoal da Opus Dei, Cruzados de Cristo e das igrejas carismáticas. A estrutura não favorece.

As CEBs (Comunidades Eclesiais de Base) têm sido uma forma encontrada para tocar as demandas sociais, de lutar para superar as desigualdades.

É muito importante destacar que a igreja não se resume aos bispos e padres, pois abrange também os fiéis e toda a comunidade. A igreja mantém uma linguagem dogmática e não fala a língua do povo, não leva a experiência de festa, de fraternidade, por isso mesmo sofre com a falta de padres”.

SAÚDE PÚBLICA
“No Brasil, infelizmente, a saúde pública é um desastre. O povo está doente. São doenças provocadas pela fome. A situação melhorou com o Fome Zero, mas ainda estamos muito atrasados. O SUS (Sistema Único de Saúde) é uma boa idéia, mas não funciona, tem uma infra-estrutura muito mal montada. O problema não está só no atendimento, mas também nas condições de como curar a doença. Muitas vezes, uma flor oferecida com carinho ao paciente faz um efeito igual ou maior do que o remédio.

O atendimento médico precisa estar centrado na integralidade. A melhor forma de prevenir e combater a doença é o tratamento personalizado. É essencial saber cuidar do paciente como cidadão e pessoa humana”.

Foto: Agnaldo Silva

Boff é contra anistia para crimes praticados entre 1964 e 1985 -

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